Um olhar a Deriva.
Quando Romildinho nasceu, Romildinho
nasceu ao som de uma sentença entrecortada, mas bem definida, “Deus...! Deus
não é padrasto... Deus é Pai”! Essa criança que mais parecia um feto nas mãos
de sua progenitora, olhava a despretensiosamente, todavia, quando adulto,
jurava que sob esse ditado via um vulto de mulher de corselete e de punho cerrado
e em riste.
Lucimar era uma moça, uma seda, uma
pérola de mulher, era só dedos com Romildinho, vaga em seus pensamentos a
certeza que o mundo era composto de quatro elementos e dois mistérios, um era
como fogo queimando na flor d’gua. Quando acreditava que um desses dois
mistérios era o maior o coração palpitava em ritmo desconhecido, mas quando
acreditava que era o outro, mordia os lábios e sentia gosto esquisito na boca.
À noite em que essa criatura de Deus
veio ao mundo não era uma noite tenebrosa ou sinistra, mas um punho em riste,
um frase entrecortada por um par de lábios trêmulos, nervos à flor d’pele e uma
manhã que não tinha a esperança de ser banhada pelos raios do sol que revelam a
identidade daqueles que estão sob a sua luz, fazia dessa noite algo como um
diapasão em mãos erradas.
O espaço tomado pelos móveis era
limpo, bem organizado, uma flor que era alumiada por um castiçal dourado, mas
com suas bordas já gastas pelos tombos, paredes lisas com imagens que traziam
os credos do proprietário que ali permitia o uso incondicional. Um catre feito sob
medidas que não atendera a vontade daquele que o encomendara, não era uma cama
de solteiro ou uma cama de casal e muito menos um catre, mas servia bem aos
propósitos, calma meus leitores, não avancem com muita ligeireza, com muita
sagacidade em seus devaneios pertinazes.
O espaço também era tomado por um
abajur, um corpo esguio, nariz alçado às nuvens, lábios finos, olhos desconfiados,
braços fortes para manter uma luz a alumiar o tempo que fosse necessário,
pernas longas e joelhos dobrados. A mobília era antiga, mas não cheirava a
guardado, ainda não havia o estilo “patina”, mas suas fissuras davam o ar da
graça de um móvel singular para a época.
Lucimar era de pouca conversa,
falava baixo, olhos inquietos, respiração lenta, ouvia bem, assim como bem
desenhadas eram suas orelhas pequenas, mas enganava pela capacidade de ouvir à
distância. Olhos cor de esmeralda, grandes e iguais aos das turcas. O corpo
coberto por uma tez de neve, dedos longos, cabelos longos e negros como uma
noite sem estrelas.
O tempo que é sempre tempo para
fazermos ou desfazermos das coisas no seu devido tempo anunciou o tempo de
Romildinho ir à escola. Menino de pernas curtas, costas largas, braços fortes,
cabeça avantajada e testa longa, fazia dele diferente, era como a mãe, de pouco
falar, muito olhar, matreiro, o moleque metia medo, na primeira vez que foi à
escola já tinha em seu alforje um canivete, mas ninguém sabia desse fato, assim
como sua mãe, ele era de paz, era uma uva, um doce o dodói da mamãe. Mas tinha
uma lâmina junto a si e à sua alma.
Um fato que deixava a vizinhança com
a pulga atrás da orelha, quanto mais o tempo passava, mais o moleque ficava
cor-de-jambo! Cor que lembra aquele doce, quebra-queixo, compreende leitor? O
pai do moleque era um sujeito que viera direto da Groelândia, morara em Berlim
um ano, para ser mais exato! Duas coisas ele fez de imediato logo que deu o ar
de sua graça por essas paragens, trabalhar como estivador e casar-se com Lucimar.
Percivaldo, marido de Lucimar viveu
79 anos no Brasil, mas nunca fora capaz de pronunciar palavras com ‘lh’ ou
distinguir palavras com dois Esses ou com cê-cedilha era uma tormenta, sempre,
sempre que tentou escrever palavras que alternavam entre o G e o J lágrimas
emergiam em abundância no rosto cansado de Percivaldo! Porque este nome
Percivaldo? Fora um nome que escolhera para homenagear a pátria que lhe
acolhera sem lhe questionar o passado! Você leitor impaciente, não pergunte a
si mesmo o passado do nosso Percivaldo.
Prosperidade era o nome do bairro
que Lucimar morava, era o bairro que também morava Antônio Noites e Dias, um
negro alto, forte o suficiente para espancar cinco ou seis policiais, uns dez ou
doze almofadinhas, tinha uma opinião tão forte que era capaz de carregar um
navio sozinho pra provar o quanto era macho. Mas quando caía a noite esse
machão se revelava um homem, um cavalheiro, uma figurinha carimbada.
Antônio Noites e Dias só saía na
noite de terno branco, chapéu branco, sapato branco, relógio de bolso, um anel
de bacharel no dedo da mão esquerda, falava baixo, tirava o chapéu e se curvava
às senhoras que lhe passavam, mesmo se estas passavam ao longe, Antônio Noites
e Dias às vezes alternava entre dias e noites, mas sempre assinava Antônio
Noites e Dias.
Este ilustre morador de prosperidade
era brilhoso e lustroso; um camarada que ganhava pouquíssimo, mas tinha uma
saúde que mais que brilhava e irradiava sustança. Lustroso porque seus sapatos
eram únicos, a cidade admirava aquele brilho que só ele conseguia em seu poder,
em seus pés, em seus domínios. Encantador nos modos, inteligente e paciente,
sabia o momento certo para se aproximar das mulheres que se descuidavam
querendo se cuidar.
Romildinho cresceu, gostava de
vestir de branco, dizia:
__ O branco me faz lembrar a neve que cai em
abundância nas paragens do meu pai.
Era muito forte, um touro indomável, gentil,
mas não tinha a arte de se aproximar das donzelas descuidadas e de corações
cheios de luz a alumiar um túnel. Tão moreno que seu pai três vezes levara as
mãos à cabeça, cravara as unhas no couro cabeludo, não sangrava, mas os olhos...
Ah os olhos!
A primeira vez que Percivaldo levou
as mãos à cabeça fora quando Romildinho nascera, a segunda fora quando cruzara
com Antônio Noites e Dias, fato este que fizera manter a memória de Romildinho
sempre fervilhando. Pai e filho cruzaram
os olhares e os miraram em Lucimar.
O tempo é tão relativo que um olhar pode durar
toda uma vida, dois olhares podem durar uma eternidade, Lucimar, em sua solidão
abaixara a cabeça, levara uma mão ao peito, a outra ao colo, mas não titubeava
no andar, segura, irradiante mesmo num momento estúpido, infelizmente a
estupidez não escolhe lugar ou momento para se apresentar, ela se apresenta, os
estúpidos que se afastem destes momentos, mas os olhares permaneceram, melhor
seriam as acusações, os impropérios, as difamações, os insultos, tudo meu Deus!
Menos a solidão que nos arremete ao silêncio dos ignorantes.
A terceira vez foi a última,
Constantino, avó de Lucimar desceu do nordeste para visitar sua neta Lucimar,
Constantino era um butelo dum Negro, com tudo que tinha direito de herdar de
seus ancestrais africano! Houve choro? Houve, houve dor? Houve, as vistas se
perderam num mar que não parava de inundar pares e pares de olhos,
arrependimentos, soluções e pedidos a Deus de que o tempo voltasse, mas o tempo
é tempo apenas enquanto tempo e não há nada além do tempo que o tempo possa
oferecer. Joelhos que se dobraram, mãos que suplicaram. A dor que nos separa do
amor é a mesma que nos une, afinal sentimentos opostos sempre nos revelam um só
objetivo, uma só coisa, um só objeto que é buscado, se é encontrado é dor que
não se explica, se não é encontrado é uma felicidade que será realizada.
Quatro mãos foram erguidas aos céus,
dois corações se curvaram e se encheram de júbilos em direção a Lucimar. Essas
mãos e esses corações tinham Deus como testemunha de suas dores, seus pesares.
A solidão ocupada por dois corações arrependidos que podiam ocupar um universo.
Lucimar era descendente de negros, Lucimar era filha de baianos, Lucimar era
uma retirante. Lucimar é nossa cor. Lucimar é Brasil.


