sábado, 23 de março de 2013

Um olhar a Deriva.




Quando Romildinho nasceu, Romildinho nasceu ao som de uma sentença entrecortada, mas bem definida, “Deus...! Deus não é padrasto... Deus é Pai”! Essa criança que mais parecia um feto nas mãos de sua progenitora, olhava a despretensiosamente, todavia, quando adulto, jurava que sob esse ditado via um vulto de mulher de corselete e de punho cerrado e em riste.
Lucimar era uma moça, uma seda, uma pérola de mulher, era só dedos com Romildinho, vaga em seus pensamentos a certeza que o mundo era composto de quatro elementos e dois mistérios, um era como fogo queimando na flor d’gua. Quando acreditava que um desses dois mistérios era o maior o coração palpitava em ritmo desconhecido, mas quando acreditava que era o outro, mordia os lábios e sentia gosto esquisito na boca.
À noite em que essa criatura de Deus veio ao mundo não era uma noite tenebrosa ou sinistra, mas um punho em riste, um frase entrecortada por um par de lábios trêmulos, nervos à flor d’pele e uma manhã que não tinha a esperança de ser banhada pelos raios do sol que revelam a identidade daqueles que estão sob a sua luz, fazia dessa noite algo como um diapasão em mãos erradas.
O espaço tomado pelos móveis era limpo, bem organizado, uma flor que era alumiada por um castiçal dourado, mas com suas bordas já gastas pelos tombos, paredes lisas com imagens que traziam os credos do proprietário que ali permitia o uso incondicional. Um catre feito sob medidas que não atendera a vontade daquele que o encomendara, não era uma cama de solteiro ou uma cama de casal e muito menos um catre, mas servia bem aos propósitos, calma meus leitores, não avancem com muita ligeireza, com muita sagacidade em seus devaneios pertinazes.
O espaço também era tomado por um abajur, um corpo esguio, nariz alçado às nuvens, lábios finos, olhos desconfiados, braços fortes para manter uma luz a alumiar o tempo que fosse necessário, pernas longas e joelhos dobrados. A mobília era antiga, mas não cheirava a guardado, ainda não havia o estilo “patina”, mas suas fissuras davam o ar da graça de um móvel singular para a época.
Lucimar era de pouca conversa, falava baixo, olhos inquietos, respiração lenta, ouvia bem, assim como bem desenhadas eram suas orelhas pequenas, mas enganava pela capacidade de ouvir à distância. Olhos cor de esmeralda, grandes e iguais aos das turcas. O corpo coberto por uma tez de neve, dedos longos, cabelos longos e negros como uma noite sem estrelas.
O tempo que é sempre tempo para fazermos ou desfazermos das coisas no seu devido tempo anunciou o tempo de Romildinho ir à escola. Menino de pernas curtas, costas largas, braços fortes, cabeça avantajada e testa longa, fazia dele diferente, era como a mãe, de pouco falar, muito olhar, matreiro, o moleque metia medo, na primeira vez que foi à escola já tinha em seu alforje um canivete, mas ninguém sabia desse fato, assim como sua mãe, ele era de paz, era uma uva, um doce o dodói da mamãe. Mas tinha uma lâmina junto a si e à sua alma.
Um fato que deixava a vizinhança com a pulga atrás da orelha, quanto mais o tempo passava, mais o moleque ficava cor-de-jambo! Cor que lembra aquele doce, quebra-queixo, compreende leitor? O pai do moleque era um sujeito que viera direto da Groelândia, morara em Berlim um ano, para ser mais exato! Duas coisas ele fez de imediato logo que deu o ar de sua graça por essas paragens, trabalhar como estivador e casar-se com Lucimar.
Percivaldo, marido de Lucimar viveu 79 anos no Brasil, mas nunca fora capaz de pronunciar palavras com ‘lh’ ou distinguir palavras com dois Esses ou com cê-cedilha era uma tormenta, sempre, sempre que tentou escrever palavras que alternavam entre o G e o J lágrimas emergiam em abundância no rosto cansado de Percivaldo! Porque este nome Percivaldo? Fora um nome que escolhera para homenagear a pátria que lhe acolhera sem lhe questionar o passado! Você leitor impaciente, não pergunte a si mesmo o passado do nosso Percivaldo.
Prosperidade era o nome do bairro que Lucimar morava, era o bairro que também morava Antônio Noites e Dias, um negro alto, forte o suficiente para espancar cinco ou seis policiais, uns dez ou doze almofadinhas, tinha uma opinião tão forte que era capaz de carregar um navio sozinho pra provar o quanto era macho. Mas quando caía a noite esse machão se revelava um homem, um cavalheiro, uma figurinha carimbada.
Antônio Noites e Dias só saía na noite de terno branco, chapéu branco, sapato branco, relógio de bolso, um anel de bacharel no dedo da mão esquerda, falava baixo, tirava o chapéu e se curvava às senhoras que lhe passavam, mesmo se estas passavam ao longe, Antônio Noites e Dias às vezes alternava entre dias e noites, mas sempre assinava Antônio Noites e Dias.
Este ilustre morador de prosperidade era brilhoso e lustroso; um camarada que ganhava pouquíssimo, mas tinha uma saúde que mais que brilhava e irradiava sustança. Lustroso porque seus sapatos eram únicos, a cidade admirava aquele brilho que só ele conseguia em seu poder, em seus pés, em seus domínios. Encantador nos modos, inteligente e paciente, sabia o momento certo para se aproximar das mulheres que se descuidavam querendo se cuidar.
Romildinho cresceu, gostava de vestir de branco, dizia:
 __ O branco me faz lembrar a neve que cai em abundância nas paragens do meu pai.
 Era muito forte, um touro indomável, gentil, mas não tinha a arte de se aproximar das donzelas descuidadas e de corações cheios de luz a alumiar um túnel. Tão moreno que seu pai três vezes levara as mãos à cabeça, cravara as unhas no couro cabeludo, não sangrava, mas os olhos... Ah os olhos!
A primeira vez que Percivaldo levou as mãos à cabeça fora quando Romildinho nascera, a segunda fora quando cruzara com Antônio Noites e Dias, fato este que fizera manter a memória de Romildinho sempre fervilhando.  Pai e filho cruzaram os olhares e os miraram em Lucimar.
 O tempo é tão relativo que um olhar pode durar toda uma vida, dois olhares podem durar uma eternidade, Lucimar, em sua solidão abaixara a cabeça, levara uma mão ao peito, a outra ao colo, mas não titubeava no andar, segura, irradiante mesmo num momento estúpido, infelizmente a estupidez não escolhe lugar ou momento para se apresentar, ela se apresenta, os estúpidos que se afastem destes momentos, mas os olhares permaneceram, melhor seriam as acusações, os impropérios, as difamações, os insultos, tudo meu Deus! Menos a solidão que nos arremete ao silêncio dos ignorantes.
A terceira vez foi a última, Constantino, avó de Lucimar desceu do nordeste para visitar sua neta Lucimar, Constantino era um butelo dum Negro, com tudo que tinha direito de herdar de seus ancestrais africano! Houve choro? Houve, houve dor? Houve, as vistas se perderam num mar que não parava de inundar pares e pares de olhos, arrependimentos, soluções e pedidos a Deus de que o tempo voltasse, mas o tempo é tempo apenas enquanto tempo e não há nada além do tempo que o tempo possa oferecer. Joelhos que se dobraram, mãos que suplicaram. A dor que nos separa do amor é a mesma que nos une, afinal sentimentos opostos sempre nos revelam um só objetivo, uma só coisa, um só objeto que é buscado, se é encontrado é dor que não se explica, se não é encontrado é uma felicidade que será realizada.
Quatro mãos foram erguidas aos céus, dois corações se curvaram e se encheram de júbilos em direção a Lucimar. Essas mãos e esses corações tinham Deus como testemunha de suas dores, seus pesares. A solidão ocupada por dois corações arrependidos que podiam ocupar um universo. Lucimar era descendente de negros, Lucimar era filha de baianos, Lucimar era uma retirante. Lucimar é nossa cor.  Lucimar é Brasil.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Pena de Morte



Pena-de-morte.

Outro dia num passado não muito distante, estava eu sentado no sofá sem saber o que assistir na tv, afinal de contas, nos dias atuais quanto você não está assistindo tv, você está sentado no sofá diante da tv; pois bem, estava eu assistindo tv quando me dei conta que o programa era a respeito da execução de pena de morte nos Estados Unidos.
O programa esclarecia as circunstâncias do processo, mas minha atenção focou em um detalhe; vamos a eles. As execuções poderiam ser através de injeção letal, câmera de gás ou choque-elétrico. Pois bem, conforme depoimento de pessoas e de profissionais que participam dessas situações há um fato que é digno de nota. Em todos os tipos de execuções a pessoa que sofre a pena capital não tem morte imediata.
Faço aqui um entrementes, o que não falta nos folhetins e nos noticiários das tvs são os casos de mortes súbitas, ou seja, o indivíduo morre numa velocidade tão acelerada que o próprio morto desconhece o fato de estar morto.
Semana passada, por exemplo, Bilu, morador da vila da Penha, ao atravessar a rua com um sorriso enorme no canto esquerdo dos lábios para Marivalda, foi atropelado por um carroceiro, entrou na via pública vivo e atravessou a mesma, de menos de três metros de largura morto. Horisvaldo, morador do Jardim das Acácias, estava mostrando ao filho Percivaldo, os cuidados que deve tomar quando estivesse andando de bicicleta, a barra da calça enroscou entre a coroa e a corrente, desequilibrou, caiu, bateu a cabeça no meio-fio e morreu na-ora! Sem contar tantos outros fatos de pessoas que tropeçam e caem em cima de algo pontiagudo, mergulhos em piscinas rasas que o elemento volta do fundo morto com a cabeça rachada, e por ai vai.
Volto às execuções. Por que nos casos de execuções os executados demoram tanto para morrer? Por que os meios usados não são tão eficazes quanto às situações cotidianas de pessoas que estão simplesmente vivendo uma vida tão despretensiosa, um momento em que o importante são os compromissos, os desejos pessoais e seus devaneios? Quantos de nós deixamos de fazer uma consulta ao médico, ao dentista, ao psicólogo, à academia e tantas coisas que nos faz bem, mas acreditamos que sempre haverá um novo amanhã, ou seja, não preocupamos com o nosso bem estar no futuro, mas quando menos esperamos nos deparamos com a morte, geralmente uma morte instantânea, mas o condenado não, tudo é planejado e executado para este morrer rapidamente, mas não, ele tem um tempo para morrer no seu momento de morte!
Volto a pena de morte, o que leva um cidadão a cometer tantas atrocidades com os membros de sua sociedade? Por que o Estado vê na pena de morte uma solução para o bem estar de seus membros? Por que acreditamos que a pena de morte é um meio para solucionar questões da sociedade se nós não sabemos qual é o verdadeiro sentido da vida, digo da vida, não de viver.
O Estado não é pai ou mãe dos cidadãos, mas tem uma parcela muito grande de responsabilidade, afinal, o Estado é responsável pelos eventos que a sociedade está exposta. As carências de uma pessoa hoje podem ser as razões de ações no amanhã. Pais que não tem condições de manterem seus filhos em escolas, o Estado que não oferece condições mínimas de formação de uma pessoa que possa exercer a cidadania de forma minimamente, com certeza o Estado está promovendo sub-repticiamente marginais, delinquentes, baderneiros amanhã.
Não queremos morrer porque queremos viver, uma vez que não sabemos por que vivemos, não queremos morrer por que na morte não há sentido lógico, prático ou moral, podemos não saber qual é o sentido da vida, mas podemos dar vários sentidos para a vida.
Há grupos que diz que o sentido da vida está em Deus, mas acredito que há outros motivos tão importantes quanto este, afinal, o que seria de Deus sem os homens ou vice-versa, não há pai sem filho, filho sem pai, a essência de um se faz no outro. A própria razão desconhece as razões numa pena de morte, o problema não estar em eliminar uma pessoa, mas o que fundamenta essa ação. O homem não vive para morrer, mas morre pela vida.







segunda-feira, 18 de março de 2013

Sua Santidade o Papa!



SUA SANTIDADE O PAPA!


Já dizia Nelson Rodrigues, todo mundo tem seu mar de lama, até o papa, é até o papa! O mês de Março iniciou com um argentino papa, e com ele veio seu mar de lama. Claro a imprensa, sempre esse espinho do calvário dos seres públicos, noticiou aos quatro cantos do planeta.
A natureza humana é complexa em todas as suas expressões, até mesmo no caso daqueles que acreditam estarem além das expectativas das limitações humanas, neste caso, os homens públicos.
O papa argentino é acusado de facilitar e até compartilhar com o movimento militar no período muito obscuro que tomou a Argentina num momento crítico de sua história. Mas pergunto ao leitor amigo, o ser-humano é capaz de avaliar até onde é possível suportar uma ou várias seções de tortura?
Não faço aqui uma defesa em prol do papa argentino, até porque não sei até aonde vai a sua omissão ou participação com o golpe militar na Argentina.  
Porém, todavia, faz necessário a introdução de outro fator neste texto, a instituição, é, a instituição religiosa, pois é fato que, uma instituição religiosa dirigida, organizada e executado todos os seus atos por seres humanos, nada de se  espantar que seus problemas sejam humanos! Ou alguém duvida desse fato!
Volto ao mar de lama, o papa, sempre esse ser fatal, tem por dever, ser homem, e não um santo, pois os santos só se tornam santos após serem canonizados, e para um ser sobreviver a uma canonização tem que, necessariamente, ser eterno, ou ser seja, estar entre aqueles que estão no paraíso. E este não é o caso da santidade papal no momento. Pois bem, sua santidade o papa dever ser apenas homem, este objeto de desejo dos seres masculinos e das mulheres é pedra raríssima no planeta, por que, explico.
Ser homem é ter respeito pelo outro, não em troca para ser respeitado, mas por que sabe que o caminho nas relações humanas se faz com respeito. Ser digno de si-mesmo e não buscar se realizar nas opiniões dos outros. Fazer exatamente o que pensa e não dizer que faz o que fala, pois isto é alto divulgar, um homem digno não se faz com propaganda, já basta à turminha do Lula e do PT. Ser homem é padecer no paraíso, por que, por que o paraíso dos homens é a terra e não seus devaneios.
Volto à instituição, que alias, tem essa palavra no radical intuir de intuire, sabe o leitor amigo o sentido do termo intuir, pois bem, pesquise meu amigo que corre os olhos nestas linhas assaz na sua intencionalidade. A igreja Católica apostólica Romana, enquanto instituição mundana é alvo de crítica ou de elogios, independente da espiritualidade daquele que assim o faz, uma fez que, enquanto instituição, não é algo dos fiéis, mas do mundo. A história dos homens e das mulheres tem nos mostrado que os homens no poder não são flores que se cheiram, e a nossa santa eminência numa instituição humana e sendo um homem não podemos exigir lhe muito ou aquele que o exige é flor que se cheire?
se, enquanto se, o papa em sua tenra juventude espiritual delatou pessoas aos militares, não há motivos para preocupações dos fiés e seus mordazes seguidores, seu mar de lama deve estar como um Mar em Fúria.