Anencefalia1.
Este
texto tem como objetivo discorrer sobre o aborto de fetos com anencefalia, sem
a pretensão, de forma sub-repticiamente, de apoiar a ciência ou a religião. Entrementes, busco tão somente analisar este tema
polêmico com a maior discrição entre as partes, sendo que aquelas têm buscado
junto ao público afirmar que uma está certa e a outra está errada.
O
aborto de feto com anencefalia é justo? A ciência afirma que é justo, as
religiões acreditam que não é justo.
Até
o presente momento, sabemos que uma criança que nasce sem a maior parte do
cérebro não pode ver, não pode falar, não pode ouvir, não pode andar, não pode
escrever. A criança que vem ao mundo com essa má formação, anencefalia, terá
quer ter alguém para cuidar dela ao longo de toda a sua vida.
Um
indivíduo que não sabe onde está, não sente o gosto das coisas, não tem
percepção, não faz dedução, não vê nada e não tem consciência alguma, este
indivíduo não vive? Ou vive? Viver é um verbo, uma ação, é algo que acontece
necessariamente enquanto ação, e não enquanto existência. Um animal racional ou
irracional vive, uma planta vive, uma pedra tem existência, mas não vive!
Em
algum momento da história ou em algum momento na atualidade, já vimos alguém que
nasceu anencefálico chegar a maior idade e dirigir alguma empresa, alguma
nação, alguma igreja, algum grupo de cientista? A história não tem registrado nenhum membro ou
chefe da comunidade científica ou religiosa que atuou efetivamente com esta
anomalia!
Hoje
a medicina pode diagnosticar, intervir e curar uma anomalia no feto antes que este
venha ao mundo, ou seja, antes que a criança nasça. Há casos de fetos que
sofrem intervenções cirúrgicas no coração. Essa intervenção é parte do processo
da evolução de nossa espécie. A inteligência ou a razão nos capacita a evoluir.
O
homem tem capacidade de evoluir, sendo este ser uma criatura e não o criador. O
Homem tem o direito de intervir no seu próprio processo evolutivo. Negar a ele intervir
no processo evolutivo para o próprio bem da espécie seria um paradoxo, uma
contradição!
Deus
sendo um ser supremo e perfeito, não criaria seres ou qualquer obra imperfeita,
pois se, se fosse possível a Deus errar, este não seria Deus, mas um deus. Todavia,
partindo do princípio que Deus é perfeito, uma anomalia na criação seria um
paradoxo, uma contradição. Desta situação emerge uma situação complexa no
âmbito humano, mas não propriamente um dilema2 da religiosidade!
A
ciência, devido seu caráter exclusivamente humano, não é perfeita, nem poderia
ser. Se fosse perfeita, seria uma intervenção divina. Todavia sendo a ciência
humana, estão implícitos erros, enganos, contradições, mas também as
probabilidades de acertos.
A
ciência aprende mais com seus erros do que com seus acertos imediatos, uma vez
que, vários erros na solução de um mesmo problema, quando chega-se à solução,
as condições negativas já são conhecidas. Mas quando a ciência soluciona na
primeira tentativa, desconhecemos as consequências negativas.
A religião é contra o aborto
de fetos com anencefalia com o argumento:
“dom João
Carlos Petrini." O religioso defende que as mães de anencéfalos concluam a
gravidez como uma forma de encarar o "drama da vida3".
Este
argumento tem como fundamento o direito a vida e também aceitar os fatos da
vida conforme Deus nos dá. Mas será que Deus quer o nascimento ou a conclusão
de um ser que não tem vida? Ou qualquer potência e possibilidade de vida?
Afirmo
que as razões dos religiosos devem ser respeitadas, entretanto, as religiões deveriam
orientar os seus fiéis. Não creio que seja justo as religiões pressionarem as
autoridades que julgam a legalidade do aborto de fetos com anencefalia a
tomarem decisões para toda a sociedade. Admito que a decisão deva ser
exclusivamente da mãe, afinal, não há peso maior sobre elas que suas próprias
crenças e a cultura em que a mãe já está inserida!
As
religiões e a ciência no afã de determinar o certo para o mundo têm errado bastante.
A história tem registrado muitos absurdos ao longo do tempo. Um avanço que as
nações modernas têm efetivamente demostrado, é que seus Estados são laicos e as
pesquisas científicas são fiscalizadas também pelo Estado.
Fé e
Razão devem necessariamente ceder em prol de uma sociedade melhor e mais humana.
A razão não deve nunca sobrepor a fé, mas a fé jamais deve fechar os olhos para
a razão, pois seria um ato irracional e arbitrário perante aquele que nos deu a
razão como ferramenta humana.
[1] A anencefalia é
uma malformação rara do tubo neural, caracterizada pela ausência parcial do
encéfalo e da calota craniana, proveniente de defeito de fechamento do tubo
neural nas primeiras semanas da formação embrionária.
[2] Raciocínio que
parte de premissas contraditórias e mutuamente excludentes, mas que
paradoxalmente terminam por fundamentar uma mesma conclusão [Em um dilema,
ocorre a necessidade de uma escolha entre alternativas opostas A e B, que
resultará em uma conclusão ou consequência C que deriva necessariamente tanto
de A quanto de B.]
2 Derivação: por extensão de
sentido. Necessidade de escolher entre duas saídas contraditórias e igualmente
insatisfatórias.
[3]
http://oglobo.globo.com/pais/religioso-contra-aborto-de-fetos-anencefalos-4612366